Os Baianos

A CORRENTE DOS BAIANOS NA UMBANDA

O arquétipo dos Baianos da Umbanda foi criado justamente em cima daqueles que melhor sustentaram e popularizaram o culto aos Orixás no Brasil.

Esses espíritos já tinham a intimidade com os Orixás suas magias, suas rezas, suas quizilas, seus feitiços, etc., e foram homenageados com uma linha de trabalhos só para eles, por meio da qual podem auxiliar os encarnados dando continuidade ai que já faziam quando viveram na Terra.

Afinal, assim como o Espiritismo, o Candomblé e todas as outras religiões cultuam seus ancestrais ilustres em todos os campos das atividades humanas, qual é o problema em se cultuar na Umbanda a figura alegre, curiosa, intrometida e extrovertida dos sacerdotes dos Orixás na Bahia de todos os Santos?

A Umbanda é, tal como o Espiritismo, um culto fundamentado no culto aos antepassados e é um culto a Egungun mais elaborado e totalmente aberto.

O que é oculto são os nomes dos espíritos que incorporam.

Zé do Coco, Maria Bonita, Lampião, Zé Pelintra, Corisco, Zé da Bahia, etc.

São nomes que, na Umbanda, englobam várias correntes espirituais formadas por sacerdotes, mestres e rezadores nordestinos.

O arquétipo dos Baianos da Umbanda foi criado justamente em cima daqueles que melhor sustentaram e popularizaram o culto aos Orixás no Brasil

A linha dos baianos é a dos heróis anônimos que sustentaram o culto aos Orixás e os semearam primeiro em solo baiano, e posteriormente no resto do Brasil e, com a Umbanda organizada, os levarão ao mundo.

BAIANOS: regência de Iansã e Ogum.

VELAS: amarelo, vermelho, azul escuro, branca, dourada, prata, marrom, amarelo/preto (bicolor) e branco/vermelho (bicolor).

FRUTAS: côco seco, côco verde, manga, abacaxi, cajú, carambola, limão (frutas cítricas)

ERVAS: alecrim, espada de São Jorge, quebra demanda, Espada de Santa Bárbara, hortelã. Adriano Camargo indica especialmente as ervas dos Orixás Yansã, Oxalá e Oyá-Tempo, relacionando estas:

1- De Mãe Yansã: a) Quentes ou agressivas: Buchinha do norte, cânfora, espada de Santa Bárbara, quebra demanda, mamona, picão preto, folhas de bambu, folhas de fumo (tabaco), pára-raios, tiririca, vence demanda, pinhão roxo; b) Mornas ou equilibradoras: Folhas de pitanga, peregum rajado, alfavaca, calêndula, camomila, cana do brejo, capuchinha, cidreira, cavalinha, chapéu de couro, cipó cravo, cipó São João, erva de Santa Luzia, semente de girassol, imburana, jurubeba, laranjeira, losna, sabugueiro, folha do fogo, pinhão branco.

2- De Pai Oxalá: a) Quentes: Açoita cavalo, erva de bicho, mamona, orégano, alho, fumo (tabaco), comigo ninguém pode; b) Equilibradoras: Alcachofra, alcaçuz, alecrim, alfazema, aquiléia (mil folhas), bardana, boldos (todos), girassol, hortelã, incenso, levante, manjericão, manjerona, rosa branca, salvai, tomilho, folha da costa (saião); c) Frias ou específicas: Algodoeiro, angélica, anis estrelado, artemísia, cravo da índia, ipê roxo, jasmim, laranjeira, louro, noz-de-cola (obi), pichuri, saco-saco, sândalo, verbena. (Observação: O comigo ninguém é uma erva tóxica que causa irritações na pele e NÃO é indicada para banhos. Usamos da erva fresca para bate-folhas e para as manipulações e firmezas das Entidades. Quando seca, ela serve para defumação).

3- De Mãe Oyá-Tempo: a) Quentes: Cânfora, cipó suma, eucalipto, orégano, folhas de bambu, pinhão branco, tiririca, chorão (salgueiro); b) Equilibradoras: Benjoim, chapéu de couro, hortelã (os vários tipos de mentas), noz de cola (obi), sabugueiro, rosa amarela, girassol, peregum rajado (dracena), folhas de incenso (planta também chamada de iboza), folhas de limão, cipó prata, erva de Santa Luzia, imburana semente, losna, pichuri, verbena, capuchinha, mil folhas, sensitiva.

BEBIDAS: batida de côco, pinga, cerveja, água de côco, suco de frutas cítricas, aguardente; vinho tinto seco; água de coco misturada com um pouquinho de pinga, mel e canela; vinho rosê; suco de casca de abacaxi adoçado com melado de cana ou de rapadura, ou então com açúcar mascavo (lavar muito bem as cascas e ferver em água mineral).

FLORES: primavera, açucena, cravo vermelho, girassol, rosa vermelha e amarela, palmas vermelhas e amarelas, gérberas.

SEMENTES: olho de boi, coquinho, olho de cabra, cravo da índia, aníz estrelado.

COMIDAS: acarajé, farofa de mandioca com carne seca e/ou carne vermelha, farofa de miúdos, mandioca cozida e frita, cará, inhame, batata doce, cocada pé de moleque, carurú, vatapá, feijão fradinho, pimentas, moqueca de peixe, rapadura, grãos, Doce de abóbora feito com pedacinhos de gengibre e enfeitado com lascas de rapadura, Abacaxi em calda.

CIGARROS: de palha ou comum.

ATUA: movimentando.

OFERENDAS:

1-) Toalha ou pano branco ou amarelo; • Velas brancas e amarelas; • Fitas brancas e amarelas; • Linhas brancas e amarelas; • Pembas branca e amarela; • Frutas: coco, caqui, abacaxi, uva, pera, laranja, manga, mamão; • Bebidas: batida de coco, de amendoim, pinga misturada com água de coco; • Flores: flor do campo, cravo, palmas; • Comidas: acarajé, bolo de milho, farofa, carne seca cozida e com cebola fatiada, quindim. (Fonte: “Rituais Umbandistas – Oferendas, Firmezas e Assentamentos” de Rubens Saraceni – Editora Madras.)

2-) Frutas: abacaxi, carambola, caju, manga, maracujá, coco, frutas cítricas; ●Flores: palmas vermelhas e amarelas, girassol, rosas, cravos e gérberas; ●Sementes: olho de boi, coquinho, olho de cabra, cravo e anis estrelado; ● Velas: amarelo, azul escuro, vermelho e marrom; ●Bebidas: batida de coco, água de coco, pinga, suco de frutas cítricas, cerveja branca; ●Comidas: farofa com carne seca (com farinha de mandioca ou de milho), acarajé, caruru, vatapá, feijão fradinho, moqueca de peixe, cocada e pimentas diversas. (Fonte: Jornal de Umbanda Sagrada, artigo de Mãe Mônica Berezutchi.)

SAUDAÇÃO: ―“Salve os Baianos!”; Resposta: ―“É da Bahia, meu Pai!” (ou: “Salve a Bahia!”).

Origens da corrente dos Baianos

No Astral se organizaram, pouco a pouco, as Linhas de Trabalho Espiritual da Umbanda, a partir dos arquétipos do povo brasileiro. A de Caboclo homenageava o guerreiro nativo e forte, conhecedor da Natureza, corajoso; a de Preto Velho destacava a sabedoria, paciência, bondade e humildade dos anciãos que vieram da Mãe África; a das Crianças nos remetia à pureza infantil e à necessidade de despertá-la em nosso íntimo, bem como à valorização da infância e dos seus cuidados.

Novas Linhas foram se apresentando gradualmente, inclusive respondendo às mais novas e crescentes necessidades do nosso meio, já que toda essa estrutura de Trabalho Espiritual da Umbanda está voltada para a evolução da nossa humanidade e dos seres afins com a nossa realidade. Os Regentes Planetários fizeram por acompanhar as mudanças do nosso meio social e atender às necessidades humanas e, principalmente, humanitárias que delas emergiam. E não poderia ser de outra forma, pois a Umbanda é uma religião BRASILEIRA e reflete os valores culturais e religiosos do nosso povo.

Assim, a cada Gira de Umbanda manifestam-se as diferentes qualidades, habilidades e saberes ancestrais desse nosso povo multicultural.

A Linha dos Baianos, também chamada “Povo da Bahia”, traz uma referência ao início da descoberta do país, à colonização e às origens de um povo que é “a cara do Brasil”. A Bahia e seu povo sintetizam o grande “caldeirão” de diversidades que é o Brasil, seja quanto às origens dos povos que aqui vivem e convivem pacificamente, seja quanto aos seus valores culturais e religiosos etc. Com efeito, o povo baiano é fraterno, universalista, devoto, fervoroso, persistente, alegre, festeiro, cheio de ginga, de ritmo e magia. E a Linha reflete tudo isso.

De maneira organizada, como uma Linha de Trabalho efetiva, os Baianos surgem a partir da década de 50, com a industrialização dos grandes centros, e especialmente em São Paulo. Isto se intensifica na década de 60, com a maior onda de migrações provenientes da grande seca que acometeu o Nordeste brasileiro.

Nas décadas de 50 e 60, ao mesmo tempo em que a Umbanda se firmava em São Paulo, crescia o fluxo migratório do Nordeste, que acabou por transformar a cidade numa das maiores metrópoles do mundo. Nesse grande fluxo destacaram-se os Nordestinos que vieram para trabalhar na construção civil e na indústria automobilística, então em franca expansão.

Popularmente, na cidade de São Paulo o Nordestino sempre foi associado ao trabalho duro, à pobreza e ao analfabetismo, restando-lhe os bairros mais periféricos e as regiões mais precárias para morar. Com todos os problemas decorrentes do exagerado crescimento populacional, sempre se buscou um “culpado”; e todos se voltaram contra o “intruso”, o “ignorante” Nordestino. Todo Nordestino passou a ser chamado de “baiano”, mas com um caráter discriminatório terrível, pejorativo e negativo.

No entanto, nos Terreiros de Umbanda paulistas a Linha dos Baianos conseguiu alcançar grande popularidade. A Umbanda sempre se caracterizou por abrigar espíritos de diversas correntes, de modo que essas Entidades “Nordestinas” foram sempre muito bem acolhidas. O caráter de luta e irreverência do Nordestino migrante parece ter sido o fator mais importante para sua aceitação dentro dos Terreiros.

Sob esse aspecto social, a Linha dos Baianos reflete também o arquétipo do rural migrado e já adaptado à zona urbana; e vai servir de ponte para os migrantes, através de sua semelhante identidade. Num primeiro momento talvez, os consulentes de origem Nordestina foram os que mais se identificaram com o jeito despojado e alegre desses Espíritos “conterrâneos”. Pouco a pouco, pessoas de todas as origens se deixaram envolver pelo carisma e o magnetismo dessas Entidades.

A Linha dos Baianos se manifesta desta forma justamente para ter um canal de aproximação, uma ponte de contato conosco, remetendo nosso pensamento a um arquétipo: o de um povo cujas lutas, sofrimentos e superações nós bem conhecemos e admiramos.

Desta forma os Baianos nos conquistam, desarmam nossas defesas emocionais e mentais, sintonizam fraternamente conosco e então conseguem auxiliar a nossa evolução espiritual e material, empregando seu cabedal de conhecimentos e elevação.

Durante muitos anos a Linha dos Baianos foi meio que renegada, seus trabalhos eram vistos com restrições. Dizia-se que era “inexistente”, não estava ligada às Linhas principais (Caboclo, Preto-Velho, Criança) e que só espíritos zombeteiros e mistificadores estariam ali.

Aos poucos, porém, os Baianos foram chegando e tomando conta do espaço que o Astral lhes concedeu, e que souberam aproveitar de forma exemplar. Hoje, são trabalhadores incansáveis e respeitados.

É cada vez maior o número de Baianos que se manifestam nos Terreiros de Umbanda, onde atuam sob o amparo das Sete Irradiações Divinas, para movimentar, direcionar e reordenar os campos da Fé, do Amor, do Conhecimento, da Justiça, da Lei, da Evolução e da Geração. Por isso encontramos Baianos (e Baianas) de todos os Orixás. Têm, ainda, um trânsito muito bom pelos caminhos de Exu, podendo trabalhar na Esquerda no momento em que isto se torne necessário.

Vale lembrar que nem todos os Baianos que se manifestam na Umbanda realmente o foram em encarnações passadas. Como ocorre em todas as Linhas de Trabalho da Umbanda, esses espíritos agruparam-se por afinidades energéticas e especialidades de atuação, mas dentre eles há múltiplas origens.

Há, no entanto, os que ainda não aceitam a Linha dos Baianos como vertente Umbandista; esquecendo-se, talvez, de que a Bahia foi “o celeiro dos Orixás”, uma terra de espiritualidade e magia. O povo baiano é sincrético e ecumênico por excelência.

No Nordeste, e especialmente na Bahia, prevaleceu a influência dos povos Nagôs, de língua Iorubá, sobre todos os outros grupos de Povos Africanos que para cá vieram, ao tempo da escravidão. E justamente os Nagôs cultuavam Orixás, ali nos deixando esta herança. Com o tempo, e por força da convivência das várias Nações Africanas, nasce o Candomblé, uma religião afro-brasileira. A Bahia cultua os Orixás, mas também reverencia o Senhor do Bonfim e os Santos católicos, pois no coração desse povo há mansidão, devoção e abertura para a Espiritualidade. E a Umbanda, que nasceu depois e já como religião brasileira, bebeu dessa fonte, além de receber influências indígenas, européias, do Catolicismo e do Espiritismo.

Mas é na Bahia ― e só na Bahia, onde mais?― que todo ano se faz um cortejo de baianas e de devotos do Candomblé e da Umbanda, lado a lado com fiéis católicos e de outras crenças e religiões, para lavar com água de cheiro a escadaria da Igreja do Senhor do Bonfim, de forma delicada e amorosa, degrau por degrau. Todos se unem para pedir bênçãos e agradecer. Quem já viu, sabe que não há palavras que traduzam isto… Nada mais natural que a Bahia, seus valorosos Pais e Mães no Santo e seu povo tenham sido escolhidos para essa homenagem!…

Não podemos nos esquecer do caráter Universalista da Umbanda, que em suas fileiras recebe e abraça a todos os espíritos que desejam praticar o Bem, independente das suas “origens” e da forma como se apresentam.

As palavras do Senhor Caboclo das Sete Encruzilhadas, ao fundar a religião no plano Terra, foram justamente no sentido de que na Umbanda os espíritos mais sábios nos ensinariam; os menos esclarecidos seriam orientados; e a ninguém seria negada uma oportunidade de manifestação, de trabalho, ou de aprendizado.

Quando um Baiano (ou Baiana) incorpora num médium e ouve, aconselha e direciona o consulente em sofrimento, ele está fazendo mais do que isto. Está mostrando que cada Povo tem seu valor, sua bagagem moral e cultural, seus valores religiosos e a “sua” maneira de fazer o Bem e que todos podem contribuir para o progresso comum. Acima de tudo, mostram que somos diferentes, mas isso não é ruim, pois o que de fato importa são os valores que carregamos no íntimo. E assim quebram-se preconceitos… E sem alarde e sem armas de guerra…

Isto se chama Fraternidade. Em silêncio e de forma simples, os Guias da Umbanda nos ensinam e auxiliam muito mais do que podemos imaginar, porque nos revelam que somos parte de uma única “raça”: a Raça Universal dos Filhos de Deus…

ALGUNS BAIANOS: Simão do Bonfim, Januário, Zé do Ouro, Juvêncio, Juvenal, Mané Baiano, Zé Baiano, Zé da Estrada, Zé da Estrada e dos Trilhos, Zé Tenório, Zé do Côco, Zé Pereira, Zeca do Côco, Zé Pretinho, Zézinho Baiano, Baiano dos Sete Cocos, Chico Baiano, Serafim, João Baiano, Severino da Bahia, Joaquim Baiano, Zé da Lua, João do Coqueiro, Zé do Berimbau, Zé do Prado.

Dentro desta Linha, em algumas Casas também se manifesta a Entidade Zé Pelintra (que em outros Terreiros vem na Linha de Malandros, ou mesmo na Linha de Esquerda, pois é um Espírito que tem peculiaridades e acesso a vários graus vibratórios).

ALGUNS NOMES SIMBÓLICOS DE BAIANAS: Maria do Balaio, Rosa Baiana, Baiana da Estrada, Maria Fulô, Januária, Maria (ou Baiana) do Rosário, Quitéria, Raimunda, Jacinta, Juvência, Baiana da Palmeira, Maria Baiana, Baiana da Praia, Maria da Cruz, Baiana Rosalva, Maria dos Anjos, Baiana dos Sete Nós, Baiana dos Cocos, Maria Mulata, Chica Baiana, Maria das Candeias, Maria dos Remédios.

Salve os Baianos! Salve a Bahia de Todos os Santos!